Ele saiu de Alegrete com o sonho de ser ator e veja o que aconteceu

Ele saiu de Alegrete com o sonho de ser ator e veja o que aconteceu

20 de maio de 2020

Como anda essa quarentena por aí? Aqui no site nós já demos dicas do que fazer nesse período para despertar a criatividade e, de quebra, garantir uma renda extra. Se você ainda não leu a matéria, cuidado, aí vai um spoiler: uma das sugestões é investir na carreira de digital influencer. Num primeiro momento essa alternativa pode até parecer um pouco fora da realidade, mas acredite, tem muita gente apostando nesse caminho, inclusive um alegretense que resolveu se aventurar por esse mundo da internet.

Há oito anos, John Castellani deixava Alegrete e caía na estrada com R$40,00, o diploma universitário de Administrador de Empresas e o sonho de ser ator. Hoje, aos 30 anos, mais maduro e com outras metas de vida, o alegretense aproveitou o período de quarentena para dar início a um projeto super bacana, o “Papo de Quinta”. Toda quinta-feira, um vídeo novo no IGTV do Instagram, falando sobre diferentes temas do cotidiano e dos conflitos que envolvem a vida adulta.

 

A Vanguarda conversou com o gaúcho, que hoje mora em São Paulo, para saber um pouco mais da sua trajetória que envolve muita coragem e superação. Confira a entrevista na íntegra!

Revista Vanguarda: Tu saiu de Alegrete com qual sonho?

John Castellani: Saí de Alegrete com o “sonho americano”, queria ser ator, fazer Malhação. Ser o próximo Bruno Gagliasso. Ver minha mãe feliz por me ver na novela das nove. Viajar o mundo, e ter meu nome no google como um grande ator. Um dia receber um prêmio de “ator revelação”. Sonho grande demais ? Talvez, mas ele me encheu de coragem para nem pensar duas vezes e agarrar aquela chance de mudar a minha realidade.

RV: Esse sonho mudou?

JC: Com certeza, os sonhos mudam a medida que ficamos mais velhos. Eu diria que eles são ressignificados. E é muito doloroso e libertador quando chegamos a essa conclusão. Tive oportunidade de vivenciar o teatro e um pouco dos bastidores da TV, aprendi que não é tão simples assim e que não é para todo mundo também. Existe muito rótulo pré definido para que se consiga o sucesso tão sonhado nessa área. Aparência, contatos, e até mesmo a sexualidade das pessoas conta; o que me desmotivou muito e também me ajudou a ir me adaptando. Arte no nosso país há muito tempo já não tem o mesmo valor que outrora teve. E hoje em dia vendo como está a situação vergonhosa da cultura no Brasil, penso que eu poderia ser um dos muitos artistas sem qualquer amparo em meio à insegurança de uma pandemia. Com isso fui me encontrando em outros caminhos. Comunicação, redes sociais e ainda penso em música. A veia artística nunca morre quando se tem, ela somente precisa achar o seu caminho em meio à realidade. Neste momento que aprendi a diferença entre sonhos e metas, eu sigo sonhando muito e acho que esse é um dom que jamais perderei e me ajuda sempre a me arriscar a sair de minhas zonas de conforto, que são lugares que nunca nos levam para frente.

RV: Como foi tua trajetória desde que deixou a cidade?

JC: Eu saí de Alegrete em 2012, com 22 anos e fui parar em Itapema-SC. Lá conheci a família Petrocelli que me abrigou, o que foi uma sorte minha. Quando pisei na avenida principal, Nereu Ramos, andei sozinho, vi o mar pela primeira vez, nossa! Foi uma indescritível sensação de liberdade. Me senti em casa estranhamente e sabia que nunca mais iria voltar a morar em Alegrete. Meu primeiro emprego foi numa panificadora da cidade, onde comecei como garçom e logo quebrei galhos como barista. Não era o que eu esperava como recém formado, mas já me deu uma noção de que se eu realmente queria me estabelecer, teria que aprender a me adaptar. Sete meses se passaram e nas minhas idas a Florianópolis, fiz amigos por lá, dentre eles, o Juliano, o que mais tarde possibilitou minha próxima mudança. Em Floripa eu morei 10 meses, trabalhando como consultor de vendas da Polishop, no shopping Iguatemi. Ainda correndo atrás do meu sonho de ser um ator passei por oficinas teatrais, cursos e conversas com quem era da área. O tempo foi passando e eu já estava percebendo que as coisas não estavam andando e eu já não me sentia aproveitando ao máximo as possibilidades. Mais uma vez, graças a amigos, cai na estrada e o destino agora era Curitiba. Foi o lugar em que menos gostei de morar. Fiz poucos amigos, passava muito tempo dentro do transporte coletivo. Lá, passei pelas minhas primeiras dificuldades financeiras, como, por exemplo, ficar sem grana para o transporte e ter que fazer as compras do mês no crédito do cartão e nem poder comprar muita coisa. Foram meses difíceis e que já estavam me tirando a paz. Como o bom e o ruim não duram pra sempre, mais uma vez os amigos salvaram tudo. Um dos meus grandes amigos com quem morei em Florianópolis agora morava em SP, e sabendo da minha situação em Curitiba me propôs mais uma mudança. Já era 2016, quando eu pedi demissão do escritório peguei a mesma mala com a qual sai de Alegrete e mais uma vez entrei num ônibus rumo ao desconhecido. E em março de 2016 coloquei os pés no coração do Brasil. Sim, eu cheguei em São Paulo, mais uma vez forasteiro em minha louca jornada.

RV: Quando tu chegou em São Paulo, qual foi o sentimento?

JC: Quando cheguei em São Paulo a minha sensação foi uma mistura de quem diria que eu viria parar aqui, com frio na barriga e uma pitada de wooooowwwww caramba tô em São Paulo meu Deus!!! E aqui estou morando desde então, e acredite é o lugar em que mais me sinto bem e mais me achei. Aqui já tive meus apertos também. O primeiro emprego foi como vendedor de loja de shopping, que foi ruim, mas quebrou o galho. Depois fui parar num call center e lá fiquei mais de um ano e me deu muitos contatos e várias experiências profissionais novas. Saindo de lá ataquei de assistente de cabeleireiro num lindo salão situado no bairro Italiano Mooca. Aprendi de mais lá, inclusive que salão não é pra mim. Até que em setembro de 2018 entrei na empresa que estou até hoje e finalmente me encontrei. Trabalho com tecnologia empoderando pequenos e médios negócios pelo Brasil.

RV: O que te motivou nessa tua caminhada e continua te motivando até hoje?

JC: Eu nunca tive dessas pretensões de ter carro e casa para me considerar uma pessoa bem sucedida. Queria ter histórias pra contar. Minha maior motivação sempre foi buscar o meu lugar no mundo, aprender com isso, viver cada coisa que a vida poderia ter pra mim e tirar sempre a melhor lição. Lá no meu começo a motivação era fugir da minha pequena cidade porque literalmente eu não aguentava mais morar lá, queria muito ver mais, viver mais , explorar mais e não entendia como muitas pessoas nasciam ali e provavelmente iriam passar o resto da vida ali do mesmo jeito fazendo a mesma coisa. Hoje respeito isso, porque o que faz sentido para mim não precisa fazer sentido para todos e cada um sabe o que lhe faz feliz e não cabe a mim qualquer tipo de julgamento. Minha motivação segue sendo genuinamente viver mais e aprender mais, quem sabe a próxima mochila seja pra sair do Brasil? Já é algo que venho matutando muito aqui, bah, Londres ainda vou ai heim!!!

John e a mãe Cléo: sua incentivadora e melhor amiga

RV: Tu pensou em desistir?

JC: Desistir significaria voltar e isso pra mim era inconcebível, já tive muito medo de ter que largar tudo e voltar com uma mão na frente e outra atrás. Principalmente em 2018, quando saí do salão onde era assistente, fiquei um tempo desempregado. Como já tinha passado por vários segmentos comecei a questionar se eu era bom em alguma coisa, se eu não estaria somente andando em círculos sem fim. Veio a depressão em sua forma mais pesada, e tenho até hoje uma memória muito forte desse tempo. Parece que foi ontem que ligava pra minha mãe desesperado quase diariamente e não conseguia dormir devido às frequentes crises de ansiedade. Mas disso tudo ficou mais aprendizado e tudo deu certo no fim.

RV: Como surgiu a ideia do “Papo de Quinta”?

JC: Sempre tive vontade de explorar esse tipo de comunicação e ver onde eu poderia chegar. Falar para mais pessoas e trazer assuntos que podem provocar a desconstruir ao mesmo tempo. Mas faltava coragem pra começar, dá muito medo esse tipo de exposição e não saber como vai ser é algo que deixa a gente muito desconfortável. No meu emprego atual eu tive a experiência de gravar treinamentos para o nosso time e dar treinamentos online agora na época de home office. Isso me deu confiança para começar os vídeos. Era o que eu precisava pra dar o pontapé inicial. O primeiro vídeo foi muito difícil, errei muito. Não sabia pra onde olhar, mas sabia que não poderia mais empurrar aquilo e correr o risco de novamente engavetar o projeto. E assim nasceu o “Papo de Quinta”, pequeno, mas promissor.

RV: Quais assuntos serão abordados?

JC: Como já é um projeto que vem sendo pensado há algum tempo, tenho ai 18 temas a serem abordados ao longo dessa jornada. Teremos de tudo, desde como é sair de casa quase sem grana até questão LGBTQIA+, passando por relacionamentos abusivos, impacto do capitalismo na nossa autoestima e por aí vai. Tudo com bom humor e, claro, uma boa pitada de sarcasmo. Eu quero trazer as pessoas para temas que todos nós vivemos e sentimos, mas pouco paramos para refletir em meio ao caos da vida moderna que nos toma tempo para qualquer respiro.

RV: Para finalizar, como tu descreveria aquele John que saiu de Alegrete e o John de hoje?

JC: Nossa! Essa certamente é a pergunta mais forte. O John de 22 anos era ingênuo, mas muito corajoso e por ele tenho muita admiração. Ele se sentia preso numa gaiola desde criança e sempre quis alçar voos maiores, ver o mundo, ver outros lugares que antes somente pela televisão tinha algum contato. Ele era simples e tinha muito que aprender, muito mais do que imaginava. Agora com 30 anos, olho para trás com muita gratidão e vejo o quanto aprendi. Errei bastante, mas tudo isso foi uma lição. Agora a maturidade se apresenta de uma forma tranquila, aprendi que liberdade é um caminho solitário, mas compensador. E como é importante sair do seu mundinho e conhecer outras formas de viver, outras histórias, pessoas com vidas totalmente diferentes da sua e como isso engrandece como ser humano. E são coisas que dificilmente a gente aprende ficando no mesmo lugar e ouvindo dia após dia mais do mesmo discurso. Questões como feminismo, racismo estrutural, machismo, homofobia e tantos outros temas que hoje eu orgulhosamente discuto entendendo meu local de fala para isso, tive como aprender e me educar sobre. Entender que muitas vezes eu cometi esses erros sem nem perceber. Ainda tenho muitos sonhos para trilhar e entendo que eles vão se ressignificando ano após ano, porque nós mesmos mudamos o tempo todo e com isso sonhamos diferente. Espero que cada vez mais todos nós tenhamos essa disposição para nos reinventarmos, nos acolhermos em nossas diferenças e que a humanidade como um todo, caminhe para uma evolução social que nos permita sermos quem somos cada vez mais.

 

 

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