Depressão: “muito ajuda quem não atrapalha”

Depressão: “muito ajuda quem não atrapalha”

28 de setembro de 2019

Quem já ouviu que a depressão é a doença do século? Exagero? Talvez nem tanto. Segundo dados da última pesquisa da Organização Mundial da Saúde- OMS (2018), atualmente o Brasil é o país da América Latina com maiores índices de pessoas ansiosas e deprimidas. São cerca de 322 milhões de pessoas sofrendo com essas doenças. Dentre elas, as mulheres sofrem mais com a ansiedade: cerca de 7,7% das mulheres são ansiosas e 5,1% deprimidas. Já entre os homens, o número cai para 3,6% nos dois casos.

Embora os índices da doença aumentem consideravelmente a cada ano, a depressão é um daqueles assuntos colocados na caixinha do tabu.

“Ainda existe muito preconceito com relação as doenças mentais na nossa sociedade. As pessoas acreditam que é fraqueza, falta de ocupação, e a própria incompreensão acerca da doença e das suas características clínicas dificulta que se fale sobre o assunto. Culturalmente, de um modo geral, não somos ensinados a falar e nem a cuidar dos nossos sentimentos e emoções, só olhamos para isso quando algo acontece”, argumenta a psicóloga Elenise Abreu Coelho.

Em resumo, é o famoso “aguentar e dar conta de tudo”, como se dividir os nossos anseios com outra pessoa fosse algo totalmente errado. Porém, conforme a psicóloga, as diversas campanhas de prevenção contra a doença e em favor da saúde mental, como por exemplo, o Setembro Amarelo, movimento que visa à prevenção ao suicídio, vem transformando essa realidade e estimulando as pessoas a falarem sobre os sentimentos, as dores e a buscar ajuda quando necessário, por isso um olhar atento pode fazer a diferença no auxílio a uma pessoa que está enfrentando este quadro.

A depressão é uma doença psiquiátrica que causa perturbação do humor, trazendo consequentemente inúmeros sintomas, tanto psicológicos como físicos. As pessoas que estão dentro deste quadro clínico possuem alterações químicas no cérebro em relação aos neurotransmissores que transmitem impulsos nervosos entre as células, entre eles a serotonina, noradrenalina e dopamina. A psicóloga Elenise elencou alguns, dos principais sintomas característicos da depressão.

 

Fique atento:

-O primeiro sinal da depressão é a alteração da rotina. A pessoa não tem mais a mesma energia para realizar suas atividades diárias como antes. Coisas como trabalhar, estudar, tarefas domésticas passam a ser realizadas com muito mais esforço.

-Ocorrem alterações no sono, no apetite, dificuldade de concentração, dificuldade para concluir tarefas antes realizadas com facilidade.

-A sensação de fadiga e cansaço são persistentes mesmo que nada tenha sido feito, e humor triste na maior parte do dia.

-São comuns sentimentos de culpa, inutilidade, desesperança. Em casos mais graves pode ocorrer ideação suicida.

4 frases que NÃO devem serem ditas para alguém com depressão

  “Você tem tudo, tem uma vida tão boa. Existem pessoas com problemas maiores.” Geralmente as pessoas falam isso tentando oferecer uma perspectiva, mas faz com que a pessoa deprimida sinta-se ainda mais culpada por estar nessa situação.

“Você também precisa se ajudar.”

O que a pessoa deprimida mais quer é sair da situação de sofrimento, mas não depende apenas de um esforço individual, precisa de tratamento especializado.

“Veja o lado positivo.”

Essa é uma das principais dificuldades da pessoa deprimida. Ter pensamentos negativos recorrentes é um sintoma da doença, assim como quando você tem calafrios porque está com febre.

“Eu sinto muito por você.” Coloca a pessoa em uma situação de vítima, aumenta ainda mais a baixa autoestima e o sentimento de inferioridade e desvalorização de si mesmo.

 

O que realmente ajuda?

 Conforme a psicóloga, ter empatia. “A pessoa com depressão precisa saber que você entende que ela está em uma condição de doença que não se resolve sozinha ou com o tempo”, relata.

Elenise aconselha: “Ao invés de frases motivacionais, diga “estou aqui para você”, “você não está sozinho”, “posso fazer algo por você?”, esteja disponível. A pessoa precisa se sentir acolhida, valorizada. Você pode ajudar auxiliando nas tarefas diárias, na organização da rotina, incentivando e acompanhando em uma caminhada, prática de exercício físico. E principalmente, oferecer ajuda na busca pelo tratamento”.

A psicóloga ainda alerta que, além da dificuldade para procurar um profissional, continuar o tratamento pode ser ainda mais custoso nesses casos. Por isso, quem se propõe a ajudar pode seguir acompanhando nas consultas e lembrando o horário da medicação, por exemplo.

“Oferecer esse apoio mostra que é uma doença, tratável, e que a pessoa não está sozinha. E um último aspecto que acho bem importante ressaltar aqui é: só ofereça esse apoio e se disponibilize se você realmente estiver disposto e sentir-se preparado para ajudar. Do contrário, apenas incentive e auxilie a pessoa a buscar ajuda profissional especializada. Você já estará fazendo muito”, salienta.

 

Tratamento gratuito

Elenise explica que o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza uma rede de profissionais para trabalhar com casos de depressão e outras doenças mentais, que inclui enfermeiros, psicólogos e médicos psiquiatras. As pessoas podem buscar essa ajuda no posto de saúde mais próximo da sua residência ou nos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Além do atendimento clínico, existem grupos terapêuticos, oficinas e uma série de outras atividades que são oferecidas nesses espaços visando contribuir na melhora e na promoção de saúde mental.

Disque ajuda

CVV – Como Vai Você? é uma das ONGs mais antigas do país. Fundado em São Paulo em 1962, atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio por meio do telefone 188. A ligação é totalmente gratuita e cerca de 3 mil voluntários trabalham 24 h por dia, todos os dias do ano, atendendo pessoas que querem conversar sobre seus sentimentos .

 

 

 

 

 

 

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