Tati Portella

Tati Portella

18 de março de 2018

 

Dona de um sorriso encantador, de uma voz doce e de uma simpatia e talento indiscutível, a cantora e compositora Tati Portella é a entrevistada dessa edição da Vanguarda alusiva às mulheres. Depois de 17 anos na banda de reggae Chimarruts, rodeada por músicos e uma equipe só de homens, Tati agora segue carreira solo com uma banda formada exclusivamente por mulheres, uma nova experiência que a cantora está curtindo vivenciar.

Natural de Santo Ângelo ela tem a música como referência desde a infância. A primeira canção que aprendeu, Garota de Ipanema, foi um incentivo da mãe que, aliás, a influenciou e apoiou muito na caminhada artística.

“Toda a minha infância foi regada a música. Meu bisavô foi maestro, minha avó tocava piano de ouvido e todos da minha família tinham relação com esse universo, por isso o despertar para a música foi algo natural para mim”, relembra.

Como a maioria dos jovens do interior, aos dezessete anos Tati mudou-se para a capital para fazer cursinho pré-vestibular. Algumas aulas eram musicadas e foi aí que os professores notaram o potencial da aluna.

“Na época me convidaram para entrar no grupo musical e eu aceitei. Passei a pagar meu curso com a música. Foi ali o início da minha carreira, com 17/18 anos, comecei a respirar música e ver que poderia ser um trabalho”, conta.

E o universo começou a conspirar a favor. No próprio cursinho ela conheceu dois integrantes da banda Chimarruts que estavam à procura de uma voz feminina para o grupo. Depois de fazer o teste, foi selecionada entre 25 meninas que tentavam a vaga.

“Minha família me apoiou desde a minha decisão, até porque no começo música não dá dinheiro, é sempre acreditar num sonho. Durante o primeiro ano da Chima, passamos tocando e trabalhando para pagar os custos do nosso primeiro disco, então minha mãe segurava em casa a parte financeira, porque ela sabia que esse sonho não seria algo corriqueiro, seria minha vida a partir dali”, revela.

E para não fugir a máxima de que mãe sempre está certa, a mãe de Tati tinha razão. A música passou a ser a vida dela. Uma longa carreira ao lado da Chimarruts que a cantora resume em uma palavra: gratidão.

“Venho de uma família matriarcal, criada pela minha mãe e pela minha avó, e caí de pára-quedas numa banda de 20 homens; 11 músicos e o restante formavam a equipe. Foi importante e interessante o aprendizado do universo masculino, conviver com posicionamentos diferentes, até a ligação com a arte, são formas distintas de enxergar a vida”, explica Tati.

Claro que como em todas as relações, as dificuldades existem, mas assim como na vida pessoal, no meio artístico as barreiras também são superadas, só que em nome da música e das memórias que se constroem e que hoje ajudam a contar essa história.

“Vários da banda considero meus irmãos. É claro que a correria da estrada também desgasta um pouco a amizade, mas a história que fizemos juntos é um legado que vai ficar. Principalmente as composições que cantava dentro da Chima, era uma das coisas

que mais me emocionava, pois era um bandeira de paz, amor, felicidade e cumplicidade, sentimentos que o reggae tem muito a oferecer”, expressa.

Noutra Direção

Enquanto estava na Chimarruts, Tati começou a pôr em prática outros projetos paralelos. Fazia shows “Do Blues ao Samba”, que tinha no repertório músicas que ela cantava ainda na infância, com referências como Elis Regina, Chico Buarque, Baden Powell, entre outros.

Em 2016 a decisão de seguir a carreira solo se concretizou. O primeiro disco “Noutra Direção” é um homônimo do caminho pelo qual a vida musical fluiu desde aquele momento.

“O que me motivou não foi uma coisa premeditada. Naturalmente o projeto começou a dar muito certo. Montamos um show em novembro daquele ano e começaram a surgir várias datas, começaram a ter mais shows do que com a Chimarruts, então a vida tratou de impulsionar “Noutra Direção”, afirma.

Então a cantora entendeu que todo aprendizado que tinha adquirido com a Chimarruts, já tinha servido de base para que pudesse seguir em frente. “Percebi que eu estava preparada psicologicamente para seguir pelas minhas pernas, pelo meu foco e minhas composições”, sublinha.

Mulheres na música

Se teve algo dentro do novo projeto que foi extremamente pensado por Tati, foi a formação da banda que a acompanharia, integrada exclusivamente por mulheres, justamente por ter passado anos na estrada rodeada por homens, queria vivenciar algo completamente diferente.

Duas meninas são do interior: Jessica Berdet (baixista) e Rika Barcelos (baterista). A Bibiana Petek (guitarra), Tati conheceu em Porto Alegre através de um projeto de música autoral. A sintonia entre elas tem sido algo que trouxe leveza para a carreira, uma experiência diferente e inovadora para Tati.

“Eu acredito que a arte seja feminina e o ser músico, o lado masculino. Me aventurar pelo lado feminino foi algo que me empoderou mais, porque minhas músicas são totalmente intimistas, coisas que eu estava passando no momento, uma descoberta como compositora. E as meninas trouxeram um tempero para isso, elas interpretam da maneira como eu imaginava”, relata.

Além disso, a banda reforça a representatividade da mulher na música, algo que Tati acredita ser uma bandeira na luta feminista por oportunidades de trabalho, salário e tratamento iguais entre homens e mulheres.

Futuro

Tati Portella terminou 2017 abençoada, como ela mesma diz. Foi convidada para fazer o show de abertura da banda Coldplay em Porto Alegre, uma escolha feita pela própria

produção da banda. Foi a oportunidade que a gaúcha teve de cantar seu single “Minha Verdade” para um público de 70 mil pessoas. “Não foi algo que caiu do céu para mim. Foi um espaço galgado com muita luta e independência, assim como para todas as bandas que vivem no cenário underground”, argumenta.

Para o futuro, além do projeto de gravar um disco com composições de variados estilos, pretende tocar em lugares que ainda não tocou, se aventurar pelo Uruguai e Argentina e compartilhar com as meninas lugares que já conheceu. “Que a vida seja mais leve, que haja menos cobrança, que possamos ser nós mesmos!”.

Por Gabriella Oliveira, publicada em março de 2018, ed. 17. Foto: arquivo pessoal.

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