Paixão Côrtes em entrevista exclusiva para Vanguarda

Paixão Côrtes em entrevista exclusiva para Vanguarda

8 de setembro de 2015

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João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes (88), folclorista, compositor, radialista, pesquisador e, na sua própria descrição, escrevinhador, abriu as portas da sua casa na capital gaúcha para receber a Vanguarda. Numa agradável noite em Porto Alegre, Marina, sua esposa, nos recebe cordialmente e nos conduz à sala de visitas, onde uma mesa de centro expõe pequenas esculturas e artefatos gauchescos, alguns certamente feitos à mão, que possuem uma simbologia inerente em cada detalhe.

Em instantes, adentra o cômodo um ícone da cultura rio-grandense, que em 1954 foi modelo para o artista Antônio Caringi esculpir pela primeira vez em gesso “O Laçador”, monumento que recebeu uma releitura em bronze e hoje é o símbolo oficial de Porto Alegre.

“Paixão Côrtes, muito prazer”, se apresenta. Nas mãos, trazia algumas, das dezenas de publicações de sua autoria, onde registrou com sensibilidade, anos de pesquisa fruto da sua vivência com o homem do campo, em conversas nos galpões de fogo de chão, rodeios com tiro de laço e bailes de campanha.

“Sou engenheiro agrônomo por formação, especializado em ovinotecnia. Estive ligado à Secretaria de Agricultura do Estado, onde comecei e encerrei minha atividade profissional nesta área. Esta minha trajetória e o contato com o homem do campo, de onde eu vim, pois sou natural de Santana do Livramento, me deu a oportunidade de ver as coisas e transmitir às novas gerações as vivências originais do passado. Eu não fiz tradicionalismo, eu fiz folclore como ciência”.

A publicação “Picoteios e Saracoteios- Folk Pampeano”, de 2003, estampa na primeira página o propósito de uma vida dedicada aos estudos. “Nossa preocupação é de devolver ao povo, o que é do povo, de forma revitalizada, sem fantasias ou inverdades, especialmente no que tange a festivais ou concursos gauchescos. Visamos, outrossim, de maneira documental, reavivar a vivência de nosso meio campestre, seus costumes, cantares, dançares, vestir, etc…, que identifique a alma da gente pampeana e se preserve com dignidade sua autóctone cultura”.

Além do material escrito, sua pesquisa disseminou-se pelo rádio e pela televisão. “A arte de comunicar é uma possibilidade que me foi dada e eu aproveitei”, reflete. Não só ele aproveitou, como também o Estado, o País e o mundo. Paixão teve a oportunidade de visitar a Europa oito vezes, levando o nosso folclore para o continente que é o berço de muitos fragmentos da nossa tradição.

“Na Europa eu fui direto às fontes originais, de onde vieram as canções, as roupas, etc, estudei e documentei. Depois voltei divulgando exatamente o que eu vi lá e aqui, e reconstruí com a maior fidelidade”, aponta.

Quando questionado sobre o tradicionalismo e sobre a forma que ele é cultuado passados 68 anos da formação do “Grupo dos 8”, a chama acesa em 1947, parece refletir no olhar cheio de saudade.

“A semana farroupilha, a chama crioula, enfim, não existia nada disso. O gaúcho era até menosprezado simbolicamente. Então nós como jovens de 18 a 20 anos, vimos a necessidade de um momento para resgatar os costumes esquecidos pela sociedade”, rememora.
Nascia o tradicionalismo de uma maneira espontânea. A única regra era o desejo de transmitir às novas gerações as verdadeiras heranças culturais do cotidiano gaúcho. E esta linha de pensamento segue firme até hoje.
“A ideia já foi passada, agora nós temos que ter sabedoria diante dela para que realmente cada um assuma um compromisso, não por determinação ou regulamentação, mas por necessidade pessoal íntima de razão de ser e não por obrigação de ser”, diz Paixão.
Para ele o movimento tradicionalista não é estanque, como o próprio nome diz, ele se movimenta e deve acompanhar o desenvolvimento sem perder as raízes e originalidade das heranças, que é a razão da multiplicação e da verdade. Nesse contexto, os Centros de Tradições Gaúchas, na opinião dele, são como qualquer outra entidade eletiva.
“É uma questão de o indivíduo saber se a entidade o agrada e acrescenta em algo, se ele está preservando o que realmente é e contribuindo com novas ideias que terão validade futuramente. O MTG é uma consequência das entidades reunidas, para filosofar sobre um princípio que cada congresso tradicionalista determina. Se está certo ou errado, isso é um direito do congresso interpretar”, ressalta.
Depois de uma longa conversa que relembrou o passado, Paixão conta que atualmente está se dedicando à 3ª edição do livro “Cordeiro à mesa, relembrança”, onde fala sobre a história da ovinocultura no Estado e o transcorrer até os dias atuais. Embora não esteja mais atuando nesta área diretamente, ele estuda para dar a sua contribuição aos mestres e futuros pesquisadores.
Antes de nos despedirmos, Marina retorna à sala a pedido do companheiro, trazendo nas mãos uma pasta com lindos modelos de vestidos de prenda desenhados por ela com riqueza de detalhes. Enquanto folheamos as páginas, o casal nos conta das obras que publicaram juntos sobre a vestimenta gaúcha.
Para finalizar, nos despedimos com um pedido receoso. Podemos fotografar esse momento para postarmos nas redes sociais? O sonoro “é claro”, veio acompanhado de um discurso que nos fez ter a certeza de que este gaúcho é, de fato, um vanguardista.
“Se eu tivesse parado eu poderia virar a cabeça para trás, mas eu sempre olho para frente. O desafio é constante, porque o mundo não para. A tecnologia avança e os meios de comunicação são mais intensivos. Eu procuro, pelo menos, acompanhar e trazer do passado alguma coisa que seja útil para o presente, recebendo com humildade toda essa tecnologia moderna sem perder as raízes”.

Entrevista por Gabriella Oliveira, publicada em setembro de 2015, edº7.  Foto de Rosana Orlandi.

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