O legionário Dado Villa-Lobos

O legionário Dado Villa-Lobos

5 de setembro de 2015

Dado

Escrito a seis mãos, Memórias de um Legionário é repleto de histórias e lembranças de uma das maiores bandas de rock do país, a Legião Urbana. Narrado pelo guitarrista Dado Villa Lobos, o livro é um prato cheio para o deleite de antigos fãs, que acompanharam o grupo ainda na ativa, e para os novos, que vivem curiosos acerca de tudo que aconteceu enquanto a banda existia. A documentação, organizada ao longo de dois anos, foi possível graças à ajuda e ao incentivo de dois historiadores amigos do músico: Felipe Demier e Romulo Mattos. Dado veio a Alegrete para participar da Feira do Livro e conversou com a Vanguarda. Confira.

“Os 30 anos da Legião e os meus 50 de idade foram agentes motivadores para a realização do livro, porém, meu maior incentivador foi o amigo e fã da Legião e do rock brasileiro, Felipe. Ele me convenceu que seria interessante marcarmos sessões de gravações, na casa dele, com meus relatos orais. A cada sessão eu me sentia mais motivado. Esse processo serviu como terapia. Todas as adversidades, depois da morte do Renato, estavam me afastando dessa história, estavam fazendo com que eu me esquecesse do que a gente foi, de todo o caminho que tínhamos percorrido juntos – eu e aqueles outros malucos”, destaca.

Cada capítulo conta com três horas de gravação e as histórias eram contadas à medida que eram lembradas. Após a finalização das gravações, os historiadores foram responsáveis pela seleção do conteúdo e pela organização cronológica dos acontecimentos. “A partir dos relatos gravados, os dois foram montando a estrutura e a narrativa e me repassavam pra que eu fizesse a minha própria narrativa. O livro, apesar de ser em primeira pessoa, foi um trabalho em conjunto, e esses dois caras foram muito importantes.”

Dado

A obra, segundo Dado, não conta apenas momentos importantes de sua vida e da história da Legião, é a documentação de todos os acontecimentos daquela época, narrados por quem viveu o momento. “Pra fazer o livro, não nos baseamos apenas nos meus retalos. Os historiadores buscaram documentos, reportagens e arquivos daquela época para corroborar as minhas histórias. É uma obra documental, se pararmos para pensar, tudo se passa em um período sociocultural e político que foi da Arena ao PT”, ressalta o músico.

Além do livro, Dado falou conosco sobre sua carreira solo, alguns possíveis projetos e, claro, sobre a Legião Urbana.

“Se Renato Russo estivesse vivo, será que a Legião ainda existiria?”

Essa, certamente, é uma questão que fica na cabeça dos admiradores da banda, de acordo com Dado, se as coisas tivessem acontecido de outra maneira, a banda estaria na ativa até hoje. “Provavelmente estaríamos fazendo alguma coisa. Era muito bom juntar o pessoal pra fazer um disco, fazer canções e outros projetos… De repente, poderíamos pensar em outras maneiras de fazer música, tentar fugir um pouco do tradicional.”

O guitarrista foi o responsável pela produção dos dois últimos álbuns da Legião: A tempestade e Uma Outra Estação. “Foi duro, foi difícil… Não era pra eu ter produzido, mas acatei um pedido do Renato. Ele já estava muito debilitado, ficando muito fraco e me disse ‘vai lá e faz você’. Eu já tinha produzido algumas coisas e quando ele me pediu, não tive como negar. Confesso que ver o Renato naquela situação foi complicado. A Tempestade era pra ter sido um álbum duplo, mas quando o Renato partiu, eu conversei com o Bonfá e decidimos lançar logo, pra podermos seguir em frente”, conta.

Nos últimos anos, a banda voltou aos holofotes devido a produções cinematográficas como “Somos tão Jovens” e “Faroeste Caboclo”. O primeiro, Dado acompanhou de perto o processo de produção e criação. “Esse filme abordou muito bem o momento e todo o cenário que rolava em Brasília naquele  período. O enfoque infanto-juvenil vai de encontro a outro público que curte a Legião, um público mais jovem, até crianças. Eu costumava brincar que esse filme era proibido para maiores de 18 anos. Em ‘Faroeste Caboclo’ eu acho que o diretor pesou a mão na veia da violência. Mesmo que essa música retrate um Brasil rural e urbano, que seja atemporal e que termine em uma briga de traficantes, eu acho que ficou muito focado nisso”, diz.

Em sua carreira solo, além de projetos especiais e trilhas sonoras, Villa Lobos lançou dois álbuns: Jardim de Cactus, ao vivo, e O Passo do Colapso. O último, contou com a participação de alguns artistas e foi lançado em formato digital. O álbum, feito de maneira colaborativa, traz características de quem participou de sua construção. “O lado espiritualizado que algumas pessoas percebem, por exemplo, é obra de um gaúcho de Porto Alegre, Nenung, da banda Os The Dárma Lovers. A Mallu Magalhães, cantando ‘Quando a Casa Cai’, também conseguiu trazer um pouco da sua doçura pro álbum… Todos colocaram um pouco de si ali, de alguma forma”, completa.

Para comemorar os 30 anos da Legião Urbana, Dado tem planos de reunir músicos e admiradores para bolar alguma coisa. Fiquem espertos, fãs e acompanhe pelo facebook: Dado Villa-Lobos.

Entrevista e texto por Samantha Gonçalves, publicada em setembro de 2015, edº7. Foto de Paulo Amaral.

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